Evandro César
Evandro César (1987) é artista visual, pixador e produtor cultural, nascido e criado no extremo Zona Leste de São Paulo, Cidade Tiradentes, onde integra o coletivo Ateliê da Rapa, ao lado dos artistas Link Museu e Tito Terapia, desenvolvendo práticas de pintura ao ar livre, coletividade e investigações sobre território e cultura urbana. Desde a juventude Evandro é uma liderança comunitária no Instituto Du Gueto e um mobilizador da cultura na Leste, organizando Saraus, formações livres, Slams, eventos culturais e beneficentes, bem como integrando a cultura do grafitti e do pixo, Rap, Reggae Beat e do Skate como enfrentamentos à violência policial nas periferias.
Integrou de 2020 a 2024 o coletivo ali:leste arte livre itinerante, onde conheceu Rodrigo Andrade e aprofundou seus laços com a arte contemporânea. Desta conexão surge o Ateliê da Rapa, na Vila Cosmopolita, no qual concentra sua produção desde então. O artista articula referências da História da pintura, da cultura popular e erudita, além das experiências que acumula no território onde cresceu e hoje vive, sem operar por representação direta ou denúncia explícita, mas através da construção atmosférica da imagem e da sedimentação da matéria pictórica.
Trabalhou muitos anos como pintor de paredes na Vila Yolanda II e por toda a capital antes de se aventurar nas telas, seja pela tinta à óleo, sob orientação de Rodrigo Andrade, ou na pesquisa com geotintas, pigmentos criados a partir de terra que coleta em seus deslocamentos pela cidade, escolha que define sua paleta de cores, entre beges, amarelos, rosas e marrons. Mas antes disso, sua pesquisa partiu da experiência da pixação como prática de circulação, inscrição e contravenção, como estilo de vida noturno e de enfrentamento dos apagamentos vividos nas periferias, bem como no centro de São Paulo. Sua produção investiga modos de construir imagens a partir das superfícies das cidades e de seus processos que intercalam erosão e permanência.
Ao longo dos últimos anos, o artista desenvolveu uma pintura marcada pelo uso de pigmentos minerais e tintas de terra produzidas artesanalmente, elaborando uma paleta de tonalidades opacas e terrosas que aproxima suas obras de uma temporalidade suspensa, quase arqueológica, que alcança nomes consagrados da História da Arte, os quais passou a conhecer através das trocas com pintores na escola independente ali:leste.
Casas, fachadas, interiores e paisagens aparecem em composições silenciosas, organizadas por campos cromáticos densos e geometrias sutis, onde a presença humana é sugerida mais pelos vestígios do que pela figuração direta. A experiência da rua permanece latente em sua prática: não mais como gesto expansivo da pixação que Evandro conhece tão bem, mas como observação atenta das estruturas afetivas, sociais e arquitetônicas que conformam o cotidiano periférico.
Sua pintura reorganiza tradições clássicas do gênero do interior e da paisagem a partir de uma perspectiva contemporânea situada nas margens da cidade. Ao tensionar repertórios ligados à pintura moderna com materiais precários: terra, poeira e superfícies desgastadas, Evandro César constrói imagens que parecem oscilar entre lembrança e projeção. Em suas obras, portas, corredores, janelas e mobiliários tornam-se dispositivos de memória e fabulação, suscitando relações de intimidade e reconhecimento ainda que se tratando daquilo que se percebe no deslocamento.
Atuou em residências na Casa-Ateliê (2026), participou da Flict - Feira Literária Cidade Tiradentes (2020, 2021) e do Clínica Geral no Ateliê 397 (2023). Co-organizou a exposição Retrato Falado junto ao Institudo Du Gueto (CEU Água Azul, 2018). Participou das exposições Atropelo (Sala 24 de Maio, São Paulo, 2022), Tinta Neles (Casa do Jasmin Arte, 2022), Arte é Bom (MIS, 2022), Perder de Vista (Galeria Berenice Arvani, São Paulo, 2023), Mesmo estando separados (Atelie397, 2023), Leilão ali:leste (Auroras, 2023), Ateliê da Rapa (Delirium, 2023), Refundação (Ocupação 9 de Julho, 2023), Ágora (Jardim São Luís, São Paulo, 2024), Ar Livre: Paisagem contemporânea na Cidade Tiradentes (Centro MariAntônia, 2024), Situações: Paisagens Urbanas (Galeria Berenice Arvani, 2024), E o Palhaço, quem é? (Paço das Artes, 2024), Olhe Bem as Montanhas (Quadra, 2024), Contra-História (ArteFASAM, São Paulo, 2024), Sereismos (NND Não É Aqui, 2026), Órbitas (Gisela Projects, 2026), além de mostras coletivas na Galeria Izabel Pinheiro, como Daquilo Que A Terra Dá, sob curadoria de Marina Frugoli. Integrou a ArtSampa pelo Solar dos Abacaxis (2022) e estreou na SP-Arte (2025) pela Galeria ArteFASAM.
