[ um clarão ]
Visões, visões, visões. Visões borradas com cores intuitivas a se formarem nas retinas dos olhos de cada um dos visitantes da exposição. É no fundo do olho que é anunciada a profecia. É no fundo do mundo que o apocalipse desperta. Águas-vivas cintilam em movimentos que nunca cessam; cada pincelada prevê o próximo gesto e assim por diante, até o oceano do artista ser tomado por estes seres e tantos outros. O que se vê? Um pouco. Semicerrar os olhos. Feixe abstrato de luz. Lacrimejar a óleo.
[ um estrondo ]
Outro ruído entope os ouvidos e o eco embaralha os sentidos. O ritmo do chiado vai aumentando a cada passo incerto. As paredes amontoam-se ao redor, formando uma espécie de túnel incandescente; o calor emana pelos quatro cantos e o centro é mesmo quente como brasa. Rios de sangue formam correntezas prontas para afogar, cavernas deleitosas com uma luminescência pulsante no limiar entre armadilha e abrigo, gigantes famintos a devorar todos os tipos de corpos. Os gritos acabam abafados pela agilidade do gesto. Do outro lado, a margem é fogo, queima e incendeia tudo tudo tudo, todos todos todos.
[ um amargor ]
Gosto metálico entre as gengivas de quem decide seguir viagem. Alguns pensam em desistir, mas já desceram por tempo demais. Os lábios secam e racham. Alucinações com sabor de alívio, mas também de miséria. A dança do sol e da lua se dá em ciclos, astros invertem as rotas e a lógica deixou de ser um pilar considerado. Pensamentos se atropelam e levanta-se a reflexão, já feita por Apollinaire em um poema:
Da lua a me ver escrever
Qual
Céu
Triste
Trilha
Onde
Vai o
Alvo
Sor-
rir
.
(e pintar)
[ um vestígio ]
Quanto é preciso percorrer para alcançar a origem do mundo? Quais são os rastros deixados pelo percurso e quais são aqueles que insistem em nos acompanhar? Levar nos bolsos apenas o espanto de cada paisagem, diluída em memórias distantes e obscenas. Mancha de tinta sobreposta até que o linho aguente mais uma camada. Tropeçar embriagado pelo que dizem as sereias, aquelas que não se sabe serem cúmplices ou vítimas, mas certamente tomadas por dor e drama. Ir mais fundo, pr’além do movimento de seus rabos. Náufrago de si. À beira.
[ um arrepio ]
Tanto suor é capaz de formar um lago profundo e arroxeado, onde todas as imagens estão espiritualmente amalgamadas. Se as mãos estiverem livres, é possível sentir gelar a espinha. Pelos em riste. Vez ou outra pesca-se alguma epifania para escutar outras versões de um mesmo lugar. São tantas que se perdem as contas. Depois do meio, há de haver outro início, labirintos em espiral irradiando o fim dos tempos. Mas, ainda assim, o sonho como guia. O sonho a pavimentar a estrada real.
[ um réquiem ]
Os dois pés fincados no chão. Sentir-se pronto para seguir viagem. Atravessar o portal.















