Debaixo de um arbusto, em um canto qualquer de uma cidade pequena e quase já desaparecida, está sentada uma doce criatura, atroz em suas feições mas, sempre, afetuosa em seus gestos febris. Não é possível saber tratar-se de um pequeno monstro, um Alien, ou um homem sapiens pós ou supra desenvolvido. Subdesenvolvido e ultra-nutrido, mezzo homem mezzo mulher, mezzo tudo e insuspeitadamente mezzo… quase nada. Sobre o seu colo, trêmulo, um papel repousa. No canto esquerdo do topo dele, já vazando das beiras, uma sentença aparece escrita à mão, em caixa alta e alarmante: UM PEQUENO TRATADO SOBRE A FRAGILIDADE. É noite.
A presente exposição, desenvolvida ao longo de mais de dois anos, reúne um conjunto de trabalhos de Andy Villela (Rio de Janeiro, 1994) e Gerben Mulder (Amsterdã, 1972) entre pinturas e desenhos inéditos de cada um dos artistas. Separados, sobretudo, por um gap geracional, seus trabalhos relacionam-se, aqui, em uma narrativa aberta, em uma espécie de dança, tão fluida quanto interdependente.
Por vezes, identificamos proximidades da ordem de construções visuais ou cromáticas, universos que parecem complementar-se em uma suave colisão. Há também espaço para o contraste de suas referências próprias, dos procedimentos e faturas utilizados em suas práticas individuais.
O título da exposição estabelece um destes pontos de interseção inegáveis. “Demons in fragile bodies” (“Demônios em corpos frágeis”) funciona como um lastro narrativo dado já de antemão ao visitante, convidado a percorrer os meandros que separam céus, possíveis infernos, fusões de ambos, lugares e paisagens suspensas na inquietação e na vulnerabilidade expressa em seus habitantes.
O universo onírico de Gerben Mulder é o território onde o artista concebe criaturas de toda sorte: humanas, inumanas, seres híbridos, animalescos, inomináveis. Criaturas tanto assombrosas quanto cativantes, a deslizarem por amplas pinceladas de azul, preto e cinza, na forma de aparições pulsantes e vívidas ou, por vezes, quase fantasmagóricas, escondidas sob camadas e camadas de tinta.
Através da experimentação de uma ampla gama de materiais — da tinta acrílica ao bastão oleoso, spray, stencil e mais —, Andy Villela arquiteta paisagens e cenários que buscam fugir de definições ou qualquer senso de reconhecimento da realidade tal qual a conhecemos. Repousa sobre a superfície das telas um sedutor estranhamento, um inevitável magnetismo causado pelos tons de amarelo, laranja, verde e outros matizes frequentemente saturados a pulsarem de seu singular universo.
BOOM! Um estouro ouviu-se ao longe, rompendo com a cadência pacífica do balneário com cara de cartão postal manchado — uma paisagem nostálgica agora alegremente devorada e celebrada por seus habitantes. No ar, voando à esmo, um papel preenchido de tinta preta anunciava a única regra para ali viverem: UM PEQUENO TRATADO SOBRE A FRAGILIDADE, versão 118. Não trata-se mais, agora, de uma eventual reconciliação mas sim do desejo pela simultaneidade — o belo não sucederá mais aquilo que o precede, mas sim nascerá junto dele.
Nada aqui se repete; nada aqui se contém. Fez-se dia e noite, a um só tempo, no balneário — um tempo estranho, místico, nada cronológico e deveras inclassificável.











